A ginasta Flávia Saraiva ainda dorme com os pais. Ela tem seu quarto,
todo bonitinho, mas sempre dá um jeito de se embolar com a dona Fábia e o
seu João. E leva o irmão junto, o Junior. Outra coisa que ela gosta de
fazer é ficar pulando na cama - dessa vez na dela mesmo - como fazia
antes de se tornar uma das grandes esperanças de medalha da ginástica. A
alma de menina, no entanto abre um cantinho para a vida de atleta.
Quando tem dor de cabeça, ela dispensa os comprimidos de dona Fábia, não
toma nem os infantis, e liga para o médico da confederação. Medo de
doping. Cada caçula dos Jogos encontra uma receita particular para viver
essa vida dupla, de ser atleta e menor de idade.
Ricardo Takahashi afirma que a filha Bruna deu um salto em distância,
da infância para a vida adulta, sem passar pela adolescência. “Ela só
brincou de boneca até os sete, depois só raquete e a bolinha”, disse o
analistas de sistemas. O pingue-pongue virou tênis de mesa com os
títulos. Ao ganhar o Desafio Mundial Infantil, em outubro do ano
passado, em Doha, ela se tornou a primeira brasileira a vencer um
torneio desse nível no tênis de mesa. Aos 16 anos, ela é a caçula da
delegação.
Bruna joga tênis de mesa por seis horas diárias, de segunda-feira a
sábado. Chega ao CT às 8h45 e fica lá até por volta de 11h45. Almoça,
faz uma hora de preparação física (às terças e quintas) e treina de novo
à tarde. Toma banho e vai para a escola, o Colégio Singular, em Santo
André (SP). Sua preocupação é recuperar as lições da escola que vai
perder durante a Olimpíada. O jeito vai ser à recorrer às amigas do
segundo ano do Ensino Médio.
Estudar à distância foi a saída encontrada por Flávia Saraiva. Ela só
vai ao Colégio Anglo-Americano para fazer as provas. Não tira 10, mas
consegue o 7 que precisa para passar e, nessa toada já está no último
ano do Ensino Médio. “O forte dela é a matemática. Puxou a mãe”,
orgulha-se dona Fábia.
Gabrielle Roncato, a mais jovem da equipe de natação, sentiu falta da
vida escolar. Depois de ter iniciado a carreira em Santos, a nadadora,
que fez 18 anos na última quarta-feira, azucrinou os pais para treinar
no Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo. E toca a família se dividir:
uma parte ficou em Santos, outra na capital. No final do ano passado,
quis voltar para Santos. “Ela não gostava muito de ficar falando só da
natação. Queria conhecer outras coisas”, disse a mãe Andrea.
A dona da medalha de ouro no Sul-Americano Juvenil de Natação, com
quebra de recorde nos 100 metros livre, em 2015, e a prata no Pan de
Toronto nos 4x200 metros livre está no primeiro ano de Direito. Seu
desafio agora é levar a família de volta para Santos.
Para Alexander Ferrer, treinador de saltos ornamentais e que tem
Giovanna Pedroso, também de 17 anos, na equipe, é um desafio é conciliar
escola e treino. “Nas horas livres, o atleta tem de se recuperar. Com
isso, mesmo na adolescência, o atleta tem de abrir mão de festas e
feriados”.
FINANÇAS - Gabi é “quase” dona do próprio nariz desde que ganhou o
primeiro comprovante de rendimentos aos 12 anos de um patrocínio em
Santos. Hoje, ela divide o apartamento com uma amiga. Mas a
independência conquistada com patrocínios pessoais e incentivos federais
vai até a página 2 da fatura do cartão de crédito. “Ela sempre pede
socorro”, disse o pai, o engenheiro automobilístico Roberto.
A carência também é afetiva. Ela fez questão que todo mundo descesse a
serra para o aniversário e come a comida feita pela mãe, mesmo
congelada. E ainda sente falta do leite com achocolatado e das refeições
com todos os irmãos juntos na mesa. “Vou poder viajar sem precisar da
autorização dos pais”, celebrou.
Entre as poucas escorregadelas de adolescente de Bruna está a paixão
pelos seriados de terror, como Diário de um Vampiro e Sobrenatural. Ela
queria ter feito uma festa de 15 anos e um anel de debutante. Por
enquanto, ganhou apenas o segundo. O brilhante ainda fica meio largo nos
dedos finos e ágeis - e, obviamente não dá para jogar com ele.
O salto para a vida para a adulta para no ar quando o tema é outro tipo
de paixão. O pai dá uma risada saborosa, fora dos padrões orientais,
quando perguntado sobre namoro. “Só depois da próxima Olimpíada”, sorri.
“Tenho de aproveitar esse momento. Tudo tem sua hora”, concordou a
filha.
Para as caçulas, os Jogos não representam apenas uma espécie de estágio
olímpico. Na ginástica, Flávia tem chances reais de medalha. “Procuro
deixá-la solta, sem cobrança. Meu marido diz que ela ainda não sabe
direito o que está acontecendo e é melhor que seja assim”, disse dona
Fábia.
Roncatto sonha com uma final dos 4x200 metros livre, feito que o Brasil
não consegue há 12 anos. Ela diz que não quer só aprender ficar olhando
os mais velhos, mas também quer mostrar o que tem bom.

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