Acontece nesta segunda-feira (28), no Salão do Tribunal do Júri do
Fórum Maria Tereza Gusmão de Andrade, em Campos, a audiência de
instrução e julgamento de Kellinho (PR), último dos vereadores (entre
eleitos e reeleitos) suspeitos de uso do Cheque Cidadão para compra de
votos na última eleição municipal a se apresentar perante a Justiça. A
sessão, que será presidida pelo juiz Eron Simas dos Santos, da 76ª Zona
Eleitoral (ZE), encerra os trâmites em primeira instância. Porém,
independente da sentença que o magistrado venha a proferir, a
probabilidade maior é de que os investigados sejam mesmo diplomados no
dia 16 de dezembro.
De acordo com a advogada Pryscila Marins, que é especialista em Direito
Eleitoral e participou de uma transmissão ao vivo realizada
recentemente pelo vereador eleito Cláudio Andrade em sua página no
Facebook, desde a publicação da Lei nº 13.165/2015, também chamada de
Reforma Eleitoral de 2015, parte dos recursos contra decisões de
primeira instância possui efeito suspensivo da sentença.
“A partir da reforma eleitoral, todos os recursos que envolvem cassação
de registro, cassação de diploma, ganharam efeito automático
suspensivo. Acredito que até a diplomação a maioria desses casos já
esteja julgada em primeira instância. É possível que alguns já tenham,
inclusive, sentenças antes da diplomação. Acontece que, ainda que essas
pessoas tenham uma sentença negativa, ou seja, que se diga que elas
praticaram abuso de poder, ou qualquer outro tipo de coisa que casse o
seu registro, a partir do momento em que essa pessoa entrar com recurso
no Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), os efeitos
dessa decisão ficam suspensos”, explicou.
Contudo, uma decisão de um órgão colegiado não deve acontecer antes da
diplomação, pondera a advogada. “Realmente não acredito que haja um
julgamento no TRE-RJ a tempo de uma diplomação. Não é impossível, mas é
um prazo muito curto”. Segundo Pryscila, os vereadores seriam impendidos
de tomar posse apenas se houvesse uma determinação do TRE-RJ anterior à
cerimônia, que está marcada para o dia 1º de janeiro de 2017.
O julgamento das 38 Ações de Investigação Judicial Eleitoral (AIJEs)
distribuídas em setembro pela Promotoria de Justiça e pela 76ª Zona
Eleitoral - que investigam o poder público municipal e a coligação
“Frente Popular Progressista de Campos”, do candidato governista à
sucessão de Rosinha Garotinho, Dr. Chicão, pelo esquema do Cheque
Cidadão - começou no último dia 8. Os primeiros a serem julgados são os
onze vereadores eleitos e reeleitos no pleito de outubro.
Entre eles, já foram julgados Roberto Pinto (PTC) e Ozéias (PSDB), no
dia 8, Jorge Rangel (PTB) e Jorge Magal (PSD), no dia 11, Linda Mara
(PTC) e Miguelito (PSL), no dia 18, Thiago Virgílio (PTC) e Cecília
Ribeiro Gomes (PT do B), no dia 21, além de Vinicius Madureira (PRP) e
Thiago Ferrugem (PR), no dia 22.
Destes, apenas Madureira compareceu à audiência e, como advogado, teria
exercido o direito de participar pessoalmente de sua defesa. Porém, a
ausência dos demais — que vem sendo apontada como uma estratégia das
defesas dos investigados para atrasar os procedimentos e permitir a
diplomação e a posse antes de uma sentença — é protocolar, garante
Pryscila.
“Não é necessária presença da parte em uma audiência de investigação
judiciária eleitoral. É dispensável porque não tem depoimento pessoal.
Nessa área cível-eleitoral não é necessária a presença da parte na
audiência, por que, neste momento, ela não está sendo julgada
criminalmente. Está sendo declarado que o que ela praticou foi um ato
tão grave que pode causar nulidade da votação. Então, a presença dela é
dispensável desse ato. Se o investigado quiser falar, depende do juiz
aceitar um depoimento pessoal dele, mas não é comum”, explica a
advogada.
Também são investigados a prefeita Rosinha, o candidato derrotado à
Prefeitura Dr. Chicão e seu vice, Mauro Silva (PSDB), o vereador
governista em fim de mandato Albertinho (PMDB), os ex-secretários
municipais de Infraestrutura e Mobilidade Urbana, Edilson Peixoto (PR), e
dos Direitos dos Idosos, Gilson Gomes (PRTB), assim como o
ex-comandante da Guarda Municipal, Wellington Levino (SD).
Além deles, a Justiça julgará, ainda, os seguintes candidatos a
vereador derrotados no último pleito: Aldo de Tocos (PRP), Ailton
Tavares (SD), Binho de Conselheiro (PRTB), Carlos Alberto do Canaã
(PTC), Duda a Renovação (PRP), Enfermeira Kátia Venina (PR), Geraldinho
de Santa Cruz (PSDB), Heloisa Rocha (PR), Kelynho Povão (PHS), Léo de
Morro do Coco (PRP), Leonardo do Turf (PSL), Paulinho Camelô (PRP),
Paulo Henrique Ph (PTC), Pepeu de Baixa Grande (PSD), Roberta Moura
(PR), Rodolfo Pescador (SD), Serginho Bigode (PTC), Tia Penha (PHS) e
Vera Bensi (PR).
Caso sejam condenados em segunda instância, a pena por compra de votos
chega a quatro anos de prisão, explica a especialista em Direito
Eleitoral. A probabilidade maior, porém, é que, neste cenário, sejam
cumpridas penas alternativas.
“A pena máxima é de quatro anos. Mas se a pessoa tem bons antecedentes,
residência fixa, salário ou cumpre outros requisitos já consolidados
pela jurisprudência, a pena vai diminuindo. Nesses casos, se chegar a
uma pena de até dois anos, dificilmente resultaria em restrição de
liberdade”.
Histórico dos vereadores - Ozéias foi preso temporariamente durante a Operação Chequinho, da
Polícia Federal (PF), no dia 19 de outubro. Ele teve sua prisão
prorrogada e, depois, convertida em preventiva, permanecendo no Presídio
Masculino Carlos Tinoco da Fonseca, em Campos, até obter liminar no
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dez dias depois.
Magal é ex-líder do governo Rosinha na Câmara de Vereadores de Campos e
se lançou candidato à presidência da mesa diretora da Casa de Leis para
a próxima legislatura.
Linda Mara teve prisão temporária decretada no último dia 26, durante a
Operação Chequinho 2, da PF. Após cinco dias foragida, foi presa no Rio
de Janeiro, graças a uma denúncia anônima. Deixou o Presídio Feminino
Nilza da Silva Santos no último dia 4.
Já Miguelito, assim como Ozéias, foi preso temporariamente durante a
Operação Chequinho, teve sua prisão prorrogada e convertida em
preventiva, ficando detido até concessão da liminar no TSE.
Virgílio é um dos nomes na corrida pela presidência da Câmara na
próxima legislatura. Em 27 de outubro, ele foi afastado de suas funções
na Casa de Leis e impedido de entrar nela ou na Prefeitura. Dois dias
depois, foi preso temporariamente pela PF. Acabou liberado no Feriado de
Finados.
Madureira foi subsecretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo e
coordenador do Espaço do Empreendedor, enquanto Ferrugem já comandou a
pasta de Desenvolvimento Humano e Social e a Fundação da Infância e
Juventude.

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