A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) deu início na
manhã de hoje (20) aos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito
(CPI) que irá investigar denúncias de irregularidades no sistema de
transporte público do estado. A CPI dos Ônibus, como ficou conhecida,
será presidida por Eliomar Coelho (PSOL). Ela terá como relator Geraldo
Pudim (PMDB), que foi o único candidato ao posto.
A implantação da CPI ocorreu após uma disputa judicial entre a base
do governo e deputados de oposição. A comissão foi requerida em agosto
pela bancada do PSOL, após irregularidades terem sido identificadas na
Operação Ponto Final, um dos desdobramentos da Operação Lava Jato no Rio
de Janeiro. De acordo com a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público
Federal (MPF), empresários do setor de transportes estão envolvidos no
repasse de propina a agentes públicos.
Um dos beneficiários seria o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB).
Também teriam participado do esquema três deputados do PMDB: Jorge
Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi. Segundo o relator, que é
correligionário dos denunciados, estas acusações não serão objeto da
CPI. Para ele, o papel da investigação parlamentar é contribuir para a
melhoria do serviço e atender a população, que quer segurança,
regularidade e preço justo. Ele prevê um trabalho longo que deverá
apontar saídas. O deputado também disse que não deve haver foco no
transporte da capital, abrangendo todo o estado.
“Não é competência da CPI tratar de questões criminais. Elas já estão
muito bem entregues ao Ministério Público, à Polícia Federal e à
Justiça. A Alerj não vai incorrer em uma situação que pode inclusive
obstruir a Justiça. O pedido da CPI que foi feito é para avaliar
possíveis irregularidades no sistema de transporte público do Rio de
Janeiro, e consequentemente os prejuízos econômicos e sociais. Nós não
iremos destacar a questão criminal”, disse Geraldo Pudim. Ele afirmou
que serão analisados os contratos e os preços das tarifas.
A posição do deputado do PMDB foi criticada por parlamentares do PSOL
e do PT. Para Eliomar Coelho, eventuais divergências serão debatidas no
momento adequado. “Nós vamos conduzir essa CPI com rigor, disciplina e
obediência ao regimento interno. Se houver um relatório que não
contemple aquilo que aconteceu, um membro pode apresentar um parecer
paralelo. A conclusão não é obrigatoriamente aceitar a posição do
relator”, avaliou o presidente da CPI.
Imbróglio
Entre os empresários denunciados pelo MPF, está Jacob Barata Filho,
cuja família comanda diversas empresas. Ele chegou a ser preso três
vezes, mas obteve em todas as ocasiões habeas corpus do ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. O último deles foi
concedido em dezembro e também beneficiou o ex-presidente da Federação
das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro
(Fetranspor), Lélis Teixeira.
Diante da repercussão da Operação Ponto Final, o PSOL conseguiu
reunir as 27 assinaturas necessárias para pedir a criação da CPI dos
Ônibus. No mesmo dia, porém, os nomes de seis deputados foram removidos
com corretivo e o caso foi levado à Justiça. Em decisão liminar
publicada no dia 4 de dezembro, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro
(TJRJ) entendeu que o regimento interno da Alerj não permite a retirada
das assinaturas uma vez que o pedido já havia sido protocolado e
determinou a implantação da CPI em até 48 horas.
A decisão não foi acatada na época, segundo a Alerj, porque não havia
tempo hábil para que os partidos políticos indicassem os membros. Com
as indicações, os trabalhos finalmente tiveram início hoje. A próxima
reunião ocorrerá na segunda-feira (26). O prazo para a conclusão dos
trabalhos é 90 dias, prorrogáveis por mais 60.
Deputados presos
As denúncias envolvendo as empresas de transporte público no estado
voltaram a ganhar destaque no noticiário nacional em novembro do ano
passado, quando foram determinadas as prisões do então presidente da
Alerj, Jorge Picciani (PMDB) e os deputados Paulo Melo (PMDB) e Edson
Albertassi (PMDB). Eles foram denunciados no âmbito da Operação Cadeia
Velha, outro desdobramento da Lava Jato no Rio de Janeiro, que
investigou uso dos cargos públicos para corrupção, lavagem de dinheiro e
evasão de divisas, em combinação com as empresas de ônibus.
De acordo com o MPF, os três deputados teriam recebido propinas
superiores a R$ 130 milhões para favorecer, em votações, os interesses
da Fetranspor. Na época, a operação gerou reação entre os parlamentares.
Com base no entendimento de que a Alerj deveria de pronunciar sobre as
prisões, eles chegaram a votar e determinar a soltura dos três
deputados. O caso, porém, chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em
decisão ainda não definitiva, a Corte validou as prisões e se manifestou
contra a necessidade de aprovação da Alerj. Os parlamentares estão
atualmente na Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, na zona
norte do Rio.
Dos sete integrantes que atualmente compõem a CPI, a maioria foi
favorável à revogação das prisões. Gustavo Tutuca (PMDB), Geraldo Pudim
(PMDB), Milton Rangel (DEM) e Nivaldo Mulim (PR) votaram pela liberdade
dos três colegas, enquanto Eliomar Coelho (PSOL), Martha Rocha (PDT) e
Gilberto Palmares (PT) foram contrários.
A composição da CPI também pode parar na Justiça. Eliomar Coelho
queria indicar um oitavo membro, o que não lhe foi permitido. “Pelo
regimento interno, o presidente da comissão tem a prerrogativa de
indicar um outro membro para a comissão. Mas a presidência da Alerj não
acolheu. Então, providências estão sendo adotadas. Infelizmente, vamos
precisar judicializar”.

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