Autor do parecer que defende a soltura dos nove militares que fuzilaram
um músico e um catador no Rio de Janeiro, o subprocurador-geral da
Justiça militar Carlos Frederico de Oliveira Pereira
diz que a morte de inocentes em operações no Rio de Janeiro é
"inevitável" e que agentes de segurança deveriam ter "salvo-conduto"
para não serem sequer processados por erros em missões.
"Você tem que ampliar mais essas garantias. Trazer para o Brasil mais o
menos o que tem nos Estados Unidos, que é a imunidade qualificada, que
já de início afasta qualquer processamento para a polícia quando ela
atua mesmo em erro, mas na crença de que está agindo legalmente", disse
em entrevista à BBC News Brasil.
Nos Estados Unidos, a chamada imunidade qualificada é uma doutrina
jurídica, reconhecida pela Suprema Corte, que protege agentes do governo
de serem responsabilizados pessoalmente por violações à Constituição e à
lei em operações, a não ser que seja uma violação de direito que, no
momento do ato, se mostrasse claramente evidente.
Na prática, isso significa que antes de um processo ser aberto contra
um policial, por exemplo, é preciso convencer um juiz de que "qualquer
agente" consideraria a atitude daquele policial inaceitável ou
desarrazoada, consideradas as circunstâncias e a lei.
Inspirado nessa doutrina, Carlos Frederico de Oliveira Pereira quer que
policiais e militares brasileiros tenham "garantias mais amplas" para
agir em operações. Professor de Direito Penal da Universidade de
Brasília, o subprocurador da Justiça militar é conhecido entre alunos
por defender posições conservadoras.
Questionado se o caso dos nove militares não seria um claro excesso no
uso da força, pelo disparo de mais de 200 tiros contra o carro conduzido
pelo músico Evaldo dos Santos Rosa, Pereira afirmou que o caso é
"grave", mas que os militares agiram achando que se tratava de um
"bandido".
A orientação de Pereira pelo fim da prisão preventiva dos nove
militares foi seguida até agora por quatro ministros do Superior
Tribunal Militar (STM), em julgamento que começou no dia 8 de maio. O
órgão tem 15 ministros. A sessão foi suspensa após um ministro pedir
vista e pode ser retomado nesta semana.
Este é o primeiro grande julgamento na Justiça militar de crime de
homicídio cometido por militares contra civis desde que foi sancionada
uma lei, em outubro de 2017, que retirou essa atribuição da justiça
comum. Antes, cabia a um tribunal do júri julgar casos como o dos nove
militares que mataram um músico e um catador no Rio de Janeiro.
Por enquanto, só a ministra Maria Elizabeth Rocha, que é civil, votou
por manter a prisão preventiva deles. Outros dez ministros do STM ainda
vão votar.
Elizabeth Rocha destacou, no julgamento, que dos mais de 200 disparos
efetuados pelos militares, 83 tiros atingiram o carro conduzido pelo
músico Evaldo dos Santos Rosa, que morreu baleado no local. Ela ainda
leu um laudo que mostra que a segunda rajada de tiros foi dada quando o
carro já estava parado, com portas abertas. Ou seja, não ocorreu em meio
a um tiroteio.
Para a ministra, a gravidade do ato foi tamanha que a prisão preventiva
deve ser mantida, para garantir a ordem pública. "Verifica-se em tese
uma ação completamente desmedida, irresponsável, desencadeada por um
roubo ocorrido momentos antes e que não se encontrava mais em curso,
inexistindo à prima face qualquer ameaça iminente, situação de risco
para possíveis vítimas civis de roubo ou sequer pessoa armada", disse,
no julgamento.
Mas, na entrevista à BBC News Brasil, o subprocurador-geral militar
disse que não vê nos nove militares uma "predisposição à violência" que
justifique a prisão antes de serem julgados e eventualmente condenados.
"Eles atiraram para matar, mas acreditando que o outro lado era
bandido, porque tinham uma informação de roubo de veículo. A análise dos
fatos não demonstra que sejam pessoas predispostas a matar os outros."
Cinco pessoas que iam para um chá de bebê, no dia 7 de abril, estavam
no carro alvejado, em Guadalupe, na Zona Norte do Rio. Evaldo do Santos
Rosa foi atingido por nove tiros.
O catador de materiais recicláveis Luciano Macedo, que passava pelo
local e tentou ajudar a família também foi atingido e morreu dias
depois. O sogro de Evaldo foi baleado, mas se recuperou. O filho de sete
anos do músico, a esposa e uma amiga dela estavam no carro e
presenciaram tudo, mas não se feriram.
Na semana passada, a Justiça Militar aceitou denúncia contra os nove
militares envolvidos na morte de Evaldo Rosa e de Luciano Macedo. Eles
vão responder por homicídio qualificado, tentativa de homicídio
qualificado e omissão de socorro.
Caberá, agora, ao STM definir se esses militares devem responder ao
processo em liberdade, como defende Carlos Frederico de Oliveira
Pereira, ou continuar presos preventivamente.
Leia os principais trechos da entrevista:
BBC News Brasil - O senhor deu parecer para liberar da prisão
preventiva os militares que deram 83 tiros contra um veículo no Rio e
mataram dois civis. Se o STM seguir essa orientação, não passará a ideia
de impunidade diante de uma operação que chocou o país?
Carlos Frederico de Oliveira Pereira - Aquela foi uma
prisão em flagrante convertida em prisão preventiva. O que estamos
discutindo é a prisão preventiva e as pessoas estão confundidas com o
mérito. Eu deixei claro, no parecer, de que é um duplo homicídio.
Mas os pressupostos de prisão preventiva não estão presentes, na minha
opinião. Não está presente que os agentes do crime vão se furtar à
aplicação da lei penal. Uma coisa são os requisitos da preventiva e a
outra prisão em razão de condenação.
BBC News Brasil - É um caso que gerou muita comoção pela
quantidade de tiros atingindo um carro de uma família com criança. Como
responder à indignação da população e ao medo de que isso se repita?
Pereira - Com relação à morte de civis, o que acontece?
Você tem embates com os criminosos, os traficantes, que são armados
fortemente. E a imprensa, a meu ver, esquece que em determinadas
situações aquilo entra no conceito da convenção de Genebra de que
ultrapassa um mero conflito interno. São criminosos organizados e
extremamente armados.
Quando você vai fazer operação de repressão ao crime, há tiroteio em
meio a civis. Eles passam a atacar os militares com arma de guerra. O
problema de atingir civis é inevitável, seja no caso das Forças Armadas
seja com a PM. Como resolver isso: só se você conseguir pacificar
aqueles locais e isso vai demorar muito tempo.
BBC News Brasil - Realmente, há complexidades nos embates entre
policiais e traficantes em áreas dominadas pelo tráfico. Mas, nesse caso
específico, o que chocou a população foi o fato de terem sido
disparados 200 tiros, com 83 atingido o carro, sem que estivesse havendo
ali uma troca de tiros. Não são situações diferentes?
Pereira - Existe o episódio, que é gravíssimo... Mas acho que foram oitenta disparos.
BBC News Brasil - Foram 200 disparos e 83 atingiram o carro.
Pereira - Pode ter sido mesmo. Mas você sabe como
aconteceu? O episódio está sendo contado de maneira isolada. Eles (os
militares) tiveram dois episódios anteriores de trocas de tiros com
bandidos.
Essa foi a terceira sequência da operação. Ninguém questiona que houve
homicídio doloso. Teve duas pessoas mortas. Agora, outra coisa é
justificar a prisão preventiva.
Por que eles deram 200 tiros, vão dar mais 200 tiros se forem soltos?
Em face de ter havido homicídio doloso, haverá mais homicídio doloso?
Poderão acontecer mais homicídios dolosos, mas não por eles. Esses
militares não vão mais ser deslocados para a rua. Vão dar a eles outras
funções.
Seria válido esse raciocínio se fosse um grupo de extermínio,
milicianos. Eles atiraram para matar, mas eles atiraram acreditando que o
outro lado era bandido, porque tinha uma informação de roubo de
veículo. A análise dos fatos não demonstra que sejam pessoas
predispostas a matar os outros. Não consigo vislumbrar requisito para a
prisão.
BBC News Brasil - Um argumento citado pela ministra Elizabeth
Rocha, do STM, única a votar contra o habeas corpus até agora, é o de
que os militares poderiam atrapalhar as investigações e a instrução
processual, considerando que eles já mentiram algumas vezes nos
interrogatórios. Qual a sua visão sobre isso?
Pereira - Mentir todo réu mente. O réu pode mentir aqui
no Brasil - diferentemente da legislação inglesa. As perícias foram
feitas, os réus foram ouvidos. Se eles tentarem causar influência em
alguma testemunha, aí sim você terá fundamento para a prisão.
BBC News Brasil - O senhor vê fundamento para a denúncia por homicídio doloso?
Pereira - Claro, mataram duas pessoas. Eu coloquei no parecer que foi duplo homicídio.
BBC News Brasil - Esse caso, na sua opinião, deve levar a uma reflexão sobre a forma como operações policiais em áreas com civis são conduzidas?
Pereira - Essas operações de garantia da lei e da ordem envolvem um risco imenso, tanto para a população civil quanto para as polícias.
As operações que acontecem no Rio de Janeiro, por maior que seja o
planejamento, dada a geografia urbana, e o fato de que há criminosos que
dominam territórios e a população local, e que realizam as operações
criminosas em meio à população civil, a repressão penal inevitavelmente
assume uma gravidade absurda.
São operações de guerra. O risco de morrer civil é total. Agora, quando
se trata do Exército, eles têm treinamento, mas não a vivência diária. A
PM enfrenta aquilo todos os dias. Não é a mesma situação.
BBC News Brasil - O senhor é a favor do trecho do projeto de lei
do ministro Sérgio Moro que permite ao juiz deixar de aplicar pena a
policiais que matarem civis em situação de "escusável medo, surpresa ou
violenta emoção"?
Pereira - Você tem é que ampliar mais essas garantias.
Trazer para o Brasil mais o menos o que tem nos Estados Unidos, que é a
imunidade qualificada, que já de início afasta qualquer processamento
para a polícia quando ela atua mesmo em erro, mas na crença de que está
agindo legalmente.
O policial nos Estados Unidos trabalha na rua sabendo que vai ter
enfrentamento e trabalha tranquilo sabendo que não vai ter um promotor
que, em caso de embate, vai denunciá-lo por homicídio. Muito mais que
isso que está sendo proposto lá (no Congresso), você tem nos Estados
Unidos.
Aqui no Brasil, mesmo se você se defender aqui matando alguém, a
possibilidade de você ser denunciado é certa. Aqui não tem garantia.
Quem é que vai querer trabalhar desse jeito?
BBC News Brasil - O salvo-conduto que o senhor defende se
aplicaria nesse caso dos nove militares que mataram o músico e o
catador?
Pereira - Veja só, em qualquer lugar do mundo, se vier
um assaltante te matar e você meter um tiro na cara dele e matar ele,
você cometeu um homicídio doloso. Agora, o que você vai alegar em sua
defesa?
BBC News Brasil - Nesse caso, legítima defesa...
Pereira - Exato, isso não exclui o fato de você ter matado dolosamente...
BBC News Brasil - Mas, no caso dos nove militares, eles atiraram contra uma família que não estava atirando de volta nem armada.
Carlos Frederico de Oliveira Pereira - Mas eles
acreditavam que estavam matando (civis)? O advogado vai fazer a defesa. O
que interessa, para a gente (Ministério Público Militar) agora é que o
fato é tipificado na lei como homicídio doloso. Agora, o que vai
acontecer lá na frente, ele vai se defender. O advogado vai alegar o que
entende ser matéria de defesa dele. Não me cabe me pronunciar sobre
isso.
BBC News Brasil - O senhor também é favorável ao uso de
helicóptero em operações da polícia em áreas densamente povoadas, como a
gente viu no início da semana passada na Favela da Maré? E ao uso de
snipers para abater quem é visto com fuzil?
Pereira - É óbvio, é claro. Isso não é criminoso comum. São pessoas com fuzis. E eles estão tendo acesso facílimo a esses armamentos.
BBC News Brasil - Helicóptero atirando não amplia ainda mais a letalidade dessas operações, inclusive atingindo civis?
Pereira - E vai fazer o que? Vai fazer o que? Ele
(criminoso) escolhe a população civil para fazer de escudo. Isso
inclusive é crime de guerra. Essa é a realidade do Brasil.
BBC News Brasil - Críticos à ampliação das garantias para que
policiais não sejam punidos por mortes de civis dizem que isso pode
abrir caminho para mais erros graves, como o que a gente viu no Rio de
Janeiro, com os 83 disparos contra o carro e a morte de duas pessoas...
Pereira - Isso é uma realidade diária do Rio de
Janeiro. Não é uma novidade. É o dia a dia. A novidade aí é o Exército
entrar nisso. Isso está acontecendo agora em algum ponto do Rio de
Janeiro.
As operações necessitam de apoio aéreo. Isso é uma operação de guerra,
querida. É isso aí. Você chega lá no morro e lá dentro são centenas de
fuzis no morro.
BBC News Brasil - O que o senhor diria para as famílias que perderam os parentes nessas operações?
Pereira - É mais uma vítima de uma lista enorme. É uma
tragédia. Qual a resposta que podemos dar às vítimas que morrem na
Síria? É uma tragédia de país pobre. Tem que buscar reparar na Justiça.
Se todo mundo parar de usar droga, o problema talvez acabe, embora eu
não ache que eles vão abandonar o fuzil para montar uma banca na feira.
Coitadas dessas famílias. Ninguém é insensível à dor delas. É uma
tragédia horrorosa, mas infelizmente é nossa realidade. É o Rio de
Janeiro, é isso aí.

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