Relator das contas do primeiro ano de governo do presidente Jair
Bolsonaro no Tribunal de Contas da União (TCU), Bruno Dantas diz que o
forte bloqueio de despesas do Orçamento tem levado o governo a "vender o
almoço para pagar o jantar", em situação dramática para o funcionamento
dos Ministérios.
Dantas diz que serviços poderão ser afetados e faz um alerta para a
falta de planejamento do governo nos cortes de gastos. Para ele, a busca
de receitas extraordinárias não passa de uma "solução-tampão". "O fato é
que o governo precisa adotar mecanismos para solucionar o problema sem
infringir a legislação vigente", afirma ele, responsável também no TCU,
pela área que cuida dos assuntos do Ministério da Economia e dos bancos
públicos.
Segundo ele, não é possível mais tolerar "artifícios tão exóticos
quanto nocivos" a pretexto de viabilizar o fechamento das contas:
"Quando a gestão fiscal não se pauta nesse corolário, o tribunal pode
emitir alertas e, no limite, na análise da prestação de contas do
Presidente da República, opinar pela rejeição dessas contas".
Como o sr. tem visto a situação das contas públicas com o corte?
A sensação que dá é que o governo está vendendo almoço para comprar o
jantar. Contam com algumas receitas que até podem acontecer. Pelo volume
e concentração, porém, no fim do ano, se acontecer algo errado, o
governo terá um problema muito sério. O timing do Congresso não é igual
ao do Executivo. Há certa dificuldade do governo de lidar com essa
situação, que é dramática.
Qual o risco?
Em economia se fala muito da profecia autorrealizável. O governo,
muitas vezes, tem a tentação de dizer que está tudo bem, que vai cumprir
todas as metas. Se ele diz desde já que não vai cumprir, problemas mais
graves podem acontecer. Mas isso acaba impedindo o governo de planejar
melhor o que é necessário para resolver o problema. Se o governo
começasse a planejar desde agora cortes pontuais em determinados setores
da administração, talvez causasse menos prejuízos à população. O
problema é que eles não têm como planejar porque o planejamento
significaria, em si, o fracasso da meta. Não tem como planejar o não
cumprimento da meta. Quando há a não realização da receita esperada,
eles são obrigados a fazer cortes simétricos. Isso em termos de gestão
publica é o retrato do fracasso do planejamento.
O governo projeta que o resultado fiscal ficará bem abaixo do
previsto. Ministérios podem parar por conta do contingenciamento
elevado?
Sem dúvida podem. Temos visto pelos números uma frustração de receitas
causada pela falta de crescimento. É bem verdade que o governo tem mais
dados que nós. Mas é preciso olhar para essas declarações com certa
cautela. O governo tem interesse em criar o clima de otimismo. Por outro
lado, isso não pode significar falta de transparência sobre a real
situação das contas públicas.
O governo já consumiu até mesmo a reserva de contingência do Orçamento. Não é perigoso?
Sim. Há risco de paralisação ou realização precária de serviços
públicos, sendo necessário esforço interno de ajuste em cada órgão para
que as restrições não afetem ou afetem o mínimo possível a população.
Não pode haver um shutdown? O TCU poderá enviar alertas?
O papel do TCU é acompanhar de perto a execução orçamentária e
financeira justamente para evitar que o País chegue a uma situação
limite, como a de um shutdown. O tribunal acompanha as medidas adotadas
para garantir, ao longo do exercício, as metas fiscais e outras regras
fiscais. Isso é pressuposto de uma ação planejada e transparente, em que
se previnem riscos e corrigem desvios capazes de afetar o equilíbrio
das contas públicas. Quando a gestão fiscal não se pauta nesse
corolário, o tribunal pode emitir alertas e, no limite, na análise da
prestação de contas do Presidente da República, opinar pela rejeição
dessas contas.
Como o sr vê o momento atual da gestão fiscal?
A situação fiscal do País é crítica. Independentemente das causas que
levaram a isso, muitas delas identificadas e apontadas pelo TCU no
passado, o fato é que o governo precisa adotar mecanismos para
solucionar o problema sem infringir a legislação vigente. Cabe ao
governo decidir qual caminho vai escolher. O TCU tem o papel de estar
atento para que as regras orçamentárias e financeiras sejam cumpridas. O
quadro pode piorar? Sim, há riscos relacionados à concretização de
receitas extraordinárias previstas para o fim do ano, o que pode afetar o
cumprimento da meta de resultado primário. Há expectativa de obtenção
de receitas extraordinárias com leilões de petróleo, porém, há itens
muito concentrados no fim do exercício. Dois casos que requerem atenção
especial são os leilões da 6ª e 16ª rodadas, que estão sendo
considerados nas estimativas de arrecadação para este ano, com ingresso
previsto para a última semana de dezembro de R$ 8,3 bilhões.
Caso essas projeções não se confirmem, pode haver impacto para o cumprimento da meta?
Sim. Por outro lado, atualmente não estão inseridas nas estimativas as
receitas dos leilões dos excedentes relacionados à cessão onerosa. Caso
venha a haver previsão segura de que essa receita ingressará em 2019,
pode-se considerar a possibilidade de desbloqueio de recursos sem riscos
para a meta fiscal.
Qual a perspectiva daqui para frente?
Um grande e eminente risco é o descumprimento da regra de ouro. Isso é
tão grave que pode levar o chefe do Poder Executivo a ser acusado de
crime de responsabilidade e se tornar passível de impeachment. Essa
regra foi estabelecida pelo constituinte com o objetivo de manter as
contas públicas equilibradas. Ela evita que o Estado se endivide,
entrando em uma "bola de neve". O Congresso já aprovou um crédito
suplementar de R$ 248,9 bilhões para garantir a regra de ouro em 2019. A
execução de despesas correntes com recursos desse crédito será
acompanhada de perto pelo TCU. É importante verificar o dimensionamento
real da necessidade dessa fonte de recursos, inclusive para balizar as
demandas semelhantes que devem ocorrer nos próximos anos.
Como o sr vê os atuais instrumentos fiscais? É preciso mudar, como quer o governo?
Os instrumentos fiscais vigentes, em geral, são muito bons. O problema é
que as regras de transparência e de contabilidade pública foram
gravemente desrespeitadas, como registrado pelo TCU por ocasião da
rejeição da prestação de contas presidencial de 2015, fato conhecido de
todos. Diante disso, a lei determina que os gestores corrijam os erros
do passado, o que tem demorado a ocorrer e foi agravado pela crise
econômica recente. As opções para solucionar o problema podem causar o
descumprimento de outras normas, o que não se pode admitir. O problema
não necessariamente está nos instrumentos fiscais. É justamente o
contrário. É preciso colocar em prática medidas planejadas e estabelecer
responsáveis. Não podemos mais tolerar artifícios tão exóticos quanto
nocivos a pretexto de viabilizar o fechamento das contas públicas.
Qual o papel do TCU nessa questão?
Houve um relevante aprimoramento dos métodos de fiscalização. Mas é
importante lembrar que há um limite sobre o que o órgão de fiscalização
pode fazer, pois, por melhor que ele venha a ser, não se pode substituir
as escolhas políticas da sociedade. Há um esforço da equipe econômica
em atender as determinações e recomendações do TCU. Certamente isso se
deve, em grande parte, à orientação do ministro Paulo Guedes, com quem
mantenho diálogo institucional muito próximo.
Como sair desse embaraço das regras fiscais, que muitas vezes não se comunicam?
Em qualquer gestão financeira, não se pode fugir do básico: a despesa
não pode ser maior que a receita. Se a receita cair, a despesa também
deve ser reduzida. Ocorre que falhas do passado nos colocaram em
situação tão crítica que os gestores de hoje estão sem saída imediata.
Todos os parâmetros e margens fiscais estão próximos do limite ou já são
negativos. Praticamente não há mais espaço para remanejamento de
gastos. O governo parece estar buscando receitas extraordinárias com a
maior rapidez que consegue, embora seja tão somente uma
"solução-tampão".
O sr adotou uma série de medidas para abrir dados da Receita. Essas decisões alimentam uma crise?
Não há crise com a Receita. Existe, sim, um processo de fiscalização
regular aberto por iniciativa do Ministério Público que se encontra em
curso. Até o momento, minha atuação se resumiu a autorizar parcialmente
as diligências solicitadas pelo Procuradoria-Geral da União (PGR). Foram
pedidas providências drásticas e até uma medida cautelar, mas entendi
que não eram apropriadas. O processo está tramitando normalmente e,
quando estiver totalmente instruído, com documentos, informações e
análise técnica dos auditores do TCU, será examinado pelo Plenário, como
ocorre com todos os demais.

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