Brasília - Um alívio. Esse foi o sentimento que o servidor do Instituto
Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), o oceanógrafo José Martins da
Silva Júnior, experimentou na tarde desta quinta-feira, 22, quando
recebeu a notícia de que a Justiça Federal de Brasília havia suspendido a
sua remoção da área de proteção ambiental de Fernando de Noronha, onde
trabalha há 30 anos, para a Floresta Nacional de Negreiros, no sertão
pernambucano.
Martins, que tem formação de mestrado e doutorado na
área de oceanografia e trabalha com pesquisa e proteção de mamíferos
aquáticos, foi surpreendido dias atrás com a informação de que teria de
deixar Noronha. A notificação ocorreu dias depois de o presidente Jair
Bolsonaro passar pela ilha e dizer que o preço das visitações eram caros
e que as coisas tinham que mudar por ali.
A transferência do servidor, que realiza estudos e
pesquisas há décadas sobre golfinhos, foi assinada no início deste mês
pelo presidente do instituto, o coronel Homero de Giorge Cerqueira,
escolhido em maio pelo ministro do Meio Ambiente, Ricado Salles. Com a
remoção, o oceanógrafo teria de apresentar no novo local de trabalho até
o início de setembro.
Nesta quinta-feira, o cenário mudou. Em decisão liminar,
a juíza da 13ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito
Federal, Edna Márcia Silva Medeiros Ramos, reconheceu o prejuízo que o
servidor sofreria em razão da mudança para o sertão pernambucano:
"Reconheço haver fundado perigo de irreversibilidade dos efeitos a serem
produzidos pela medida administrativa impugnada, consubstanciado na
consumação da remoção do servidor", escreveu. A suspensão terá vigência
até o julgamento do mérito da questão.
Em entrevista ao Estado, Martins
desabafou. "Foi um alívio, mas não uma surpresa, porque todos os
juristas me disseram que eu tinha muita chance de ganhar. Mas eu não
vejo perdedor. Sou da estratégia dos golfinhos, que joga o jogo do
ganha-ganha. Para um ganhar, o outro não precisa perder", comentou. "O
que sinto é um sentimento de justiça, e que foi feito pela Justiça
Federal. E isso não é coisa só minha, é uma resposta para todas as
pessoas que brigam e batalham pela conservação da natureza no Brasil.
Não guardo mágoa de ninguém e de nenhum processo. O importante é a gente
pensar no futuro, em como cuidar melhor do País."
Martins conta que não chegou a sair da ilha. Estava
aguardando o resultado do processo que moveu, na tentativa de permanecer
no arquipélago, com sua família. "Eu tinha 30 dias para me apresentar
em Pernambuco, mas acreditava e tinha fé que a gente ia ter esse ganho
na Justiça, ainda que preliminarmente. Então, eu não saí de Fernando de
Noronha, continuei trabalhando minhas oito horas por dia aqui",
comentou. "Agora, sigo trabalhando normalmente, até uma segunda decisão
da Justiça venha, ou que o ICMBio entenda que a continuidade do meu
trabalho em Fernando de Noronha é a melhor opção, atendendo aqui as
necessidades do ICMBio."
Quando soube que seria removido para o sertão de
Pernambuco, Martins tentou argumentar, por meio de um processo
administrativo, que não tinha qualquer conhecimento sobre a nova unidade
de conservação. Ainda assim, o presidente do ICMBio manteve a sua
remoção compulsória.
"A possibilidade de ser encaminhado para o sertão de
Pernambuco me surpreendeu, me deixou muito desapontado, sem dúvida
nenhuma. Eu tenho toda uma formação que se baseou em escolas e
universidades públicas de oceanografia. Meu conhecimento sobre essa área
é público, e é algo que tenho que devolver para a sociedade. Não posso
esquecer esse conhecimento e começar a trabalhar em um lugar onde não
tenho nada a acrescentar", disse.
Segundo o especialistas, a decisão da Justiça Federal,
mesmo que em caráter preliminar, deve ajudar no processo de mantê-lo no
local onde trabalha. "Não podemos eliminar peças do jogo. Quando isso
acontece, fica desequilibrado. Agora espero que o ICMBio entenda o apelo
da comunidade de Fernando de Noronha e o apelo da Justiça e nos ajude
no caminho da preservação, conservação do desenvolvimento sustentável
oceânico."
Nas últimas semanas, o Ministério do Meio Ambiente tem
feito diversas remoções de cargos e funções sem qualquer tipo de aviso
prévio aos servidores, que já acusaram o ministro da Pasta, Ricardo
Salles, de assédio moral coletivo.

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