A economia brasileira seguiu seu caminho de recuperação, ainda que
lenta, no terceiro trimestre do ano, quando o Produto Interno Bruto (PIB,
valor de todos os bens e serviços produzidos em determinado período)
avançou 0,6% em relação ao segundo trimestre do ano. Em relação ao
terceiro trimestre de 2018, o PIB avançou 1,2%, informou nesta
terça-feira (3), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE). O resultado veio dentro do intervalo das estimativas dos
analistas consultados pelo Projeções Broadcast (de 0,30% a 0,70%), mas
acima da mediana, de 0,40%.
O avanço de 0,6% no terceiro trimestre ante o segundo trimestre do ano
foi a maior variação nessa base de comparação desde o primeiro trimestre
de 2018, quando a alta foi de 0,7% ante o quarto trimestre de 2017,
O consumo das famílias foi um dos motores do
crescimento, com alta de 0,8% sobre o período de abril a junho e
crescimento de 1,9% em relação ao terceiro trimestre do ano passado.
Segundo economistas, o consumo privado deverá seguir puxando a economia
até o fim do ano, deixando para trás as estimativas mais pessimistas
para o PIB de 2019.
Desde julho, as projeções de mercado para o crescimento econômico deste
ano vêm sendo revistas para cima - após passarem de 2,57%, em janeiro,
para 0,81%, conforme o Boletim Focus, do Banco Central (BC) - e, hoje,
estão em torno de 1,0%.
A lenta recuperação do mercado de trabalho - que, mesmo com a geração
de vagas puxada pelo setor informal e com o crescimento tímido da renda,
garante alguma elevação no dinheiro total disponível para gastar -, a
inflação comportada e os juros nas mínimas históricas dão suporte para o
avanço no consumo, que recebeu ainda um anabolizante: a liberação de saques do FGTS.
Autorizados a partir de setembro, ou seja, ainda no terceiro trimestre,
os saques de R$ 500 por conta do FGTS foram permitidos para todos os
trabalhadores. Inicialmente, o cronograma proposto pelo governo federal
distribuiria os saques entre o fim de 2019 e o início de 2020, mas a
Caixa antecipou as datas, ampliando o valor total a ser liberado ainda
este ano.
Em outubro, o Ministério da Economia estimava que a
antecipação liberaria R$ 12 bilhões para impulsionar as vendas de Natal,
valor que sobe para R$ 14,5 bilhões quando somado com o pagamento de R$
2,5 bilhões do 13.º para os beneficiários do Bolsa Família.
Segundo a economista Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro
de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), a lenta melhoria do
mercado de trabalho e a expansão do crédito já permitiriam um aumento do
consumo das famílias, mas a liberação do FGTS levará o crescimento do
principal componente do PIB pelo lado da demanda ao ritmo médio de 1,0%
por trimestre na segunda metade do ano.
"R$ 500 pode parecer pouco, mas, dado que a renda real vem crescendo
pouco e que não houve reajuste real para o salário mínimo, os saques do
FGTS são um ganho real", afirma Silvia.
O Ibre/FGV projetava um crescimento de 1,3% no consumo das famílias no
quarto trimestre, em relação ao trimestre imediatamente anterior, antes
de conhecer os dados divulgados nesta terça, pelo IBGE.
O problema, segundo a pesquisadora do Ibre/FGV, é que esse ritmo de
crescimento do consumo das famílias de 1,0% por trimestre, esperado para
a média da segunda metade deste ano, tende a não se sustentar. A
recuperação lenta do mercado de trabalho e a expansão do crédito, com
juros baixos, deverão seguir impulsionando o consumo em 2020, mas a um
ritmo próximo de 0,5% por trimestre."Com o crescimento só pautado em
consumo e serviços, fica difícil ter mais tração", afirma a economista
Andressa Durão, da corretora Icatu Vanguarda. Para ela, passados os
efeitos pontuais da liberação do FGTS, fatores estruturais, como a queda
do juro, devem começar a impulsionar a economia, mas o desemprego
elevado e a renda contida devam seguir limitando um crescimento mais
robusto.
Pelo lado da oferta, o consumo das famílias impulsionou o PIB de
serviços, que avançou 0,4% na comparação com o segundo trimestre deste
ano e 1% em relação ao terceiro trimestre de 2018. O comércio registrou
alta de 1,1% ante o trimestre imediatamente anterior.
O PIB da indústria avançou 0,8% no terceiro trimestre em relação ao
período imediatamente anterior, com variações divergentes entre os
segmentos. A indústria da transformação encolheu 1%, enquanto a
indústria extrativa avançou 12%, deixando para trás os efeitos negativos
provocados pelo rompimento de uma barragem de rejeitos minerais da Vale
em Brumadinho (MG), ocorrido em janeiro. A indústria da construção
cresceu 1,3% em relação ao segundo trimestre deste ano.
O crescimento da construção civil, puxado pelo setor imobiliário, se
refletiu, pelo lado da demanda, no avanço de 2% da formação bruta de
capital fixo (FBCF, conta dos investimentos no PIB) na passagem do
segundo para o terceiro trimestre. Na comparação com o terceiro
trimestre de 2018, os investimentos cresceram em 2,9%.
"É o setor (a construção civil) que está realmente fazendo uma
diferença. Temos bons números de lançamentos de novos imóveis, de início
de novas construções, além das concessões que devem significar um
impulso na infraestrutura", diz o economista-chefe do Banco BRP, Nelson
Rocha Augusto.
Ainda assim, Matos, pesquisadora do Ibre/FGV, acha que um cenário de
atividade econômica crescendo puxada pelos investimentos ficará para
2021. Mesmo na construção, os investimentos estão mais localizados no
segmento imobiliário de alto padrão e a alta recente do dólar pode
inibir aportes em máquinas e equipamentos importados. / COLABORARAM
THAÍS BARCELLOS E CÍCERO COTRIM
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