quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

CRÔNICA DE CAMPOS - HERBSON Freitas

Ah, que saudade dos Carnavais passados! 

Era na Praça de São Salvador ou Praça do Santíssimo Salvador. O Carnaval passado era realmente – para os que não sabem – no centro da cidade. Não havia nada do que existe hoje, ou melhor, existia há algum tempo atrás: arquibancadas, sonorização, decoração, confetes e serpentinas. Existiam os chamados blocos de sujos ou mascarados: palhaços, arlequins, pierrots, colombinas, bailarinas, havaianas e muitos tipos criativos: “Tit e Ica” (palhaços), “Amar foi minha ruína” (mulher grávida), Bloco “Uisquedão vão na frente e os que “comem” vão atrás...” (alegoria um grande vidro de uísque), sob o comando do radialista Josélio Rocha.

O Carnaval campista, na realidade, era de dois dias. No sábado, que não é ou não era Carnaval, apenas eram realizados os bailes carnavalescos nos clubes da cidade. No domingo, começava a fuzarca, com os desfiles dos chamados “sujos” pela manhã e, à noite, os das pequenas sociedades carnavalescas da época (hoje não existem mais): blocos de escudos (“Felisminda Minha Nega”, “Prazer das Morenas” – os principais), ranchos (“Sereia do Norte”, “Chuveiro de Prata”, entre outros) e os cordões (“Triunfo das Cores”, “Estrela de Ouro”. “Benta Pereira”, “Temor do Norte”, “Selvagens do Brasil”, eram muitos). Mais tarde, surgiram as escolas de samba.

Não havia nada na segunda-feira de Carnaval. Era dia de trabalho. Na terça-feira, chamada de “terça-feira gorda”, desfilavam os grandes clubes: Tenentes de Plutão (ou Clube Plutões), Indiano Goytacaz (ou Clube Indianos) e Macarroni (simplesmente Clube Macarroni - crítica à Colônia Italiana existente, em Campos no passado), com seus carros alegóricos gigantescos, artisticamente trabalhados, alguns com mulheres lindíssimas. À frente, uma guarda de honra de cavaleiros de branco, trotando lindos animais, sob o som de uma fanfarra estridente, anunciando a passagem dos três grandes clubes.

Havia também o famoso corso: carros abertos em carreata pelas principais ruas da cidade. Confetes e serpentinas à beça. Era um Carnaval sem maldade, sem violência, bem diferente dos atuais. Flerte, ou melhor, o flerte inocente predominava, através de gestos cordiais, troca de punhados de confetes e lances de serpentinas. E o lança-perfume? Havia, e era para brincar, namorar, e não para cheirar, o que passou a ocorrer mais tarde.

Não existiam as praias ou o Carnaval praiano. Todos participavam. Nos salões dos principais clubes, a sociedade estava presente. O povo cantava sambas e marchinhas inteligentes, sem obscenidades – apenas, algumas, com duplo sentido. As famílias ficavam nas calçadas do centro da cidade, prestigiavam de verdade. Confetes e confetes aos montões. Fantasias, muitas fantasias pelas ruas da cidade, predominando as fantasias orientais.

Os desfiles das sociedades carnavalescas eram prestigiados por todos. As autoridades municipais prestigiavam maciçamente. Enfim... Com o passar do tempo, foram surgindo, em número considerável os bois pintadinhos (eram bois pintadinhos e não de samba), os blocos de rua usavam saiotes, tamancos e batiam latas. Era uma maravilha! Patesko, “Pintinho”, Zazau, Agnelo Lessa (rumbeiro) e Jorge da Paz Almeida, entre outros, eram alguns dos muitos carnavalescos criativos e que davam aquele “algo mais” ao Carnaval Campista.

Hoje, tudo mudou. O Carnaval é fora de época, tem regulamento, tem bois de samba, tem travestis de mulher, embora já o sejam, tem CEPOP – Centro de Eventos Populares Osório Peixoto, onde os desfiles são realizados, assim como outros acontecimentos, e tudo mais que os tempos exigem.

(*) Jornalista.

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