Um grupo de dez militares do Exército fez um reconhecimento de terreno na Vila do Pinheiro, no Conjunto de Favelas da Maré, nesta quinta-feira (3). A vistoria realizada pretendia preparar o local para a chegada das tropas militares no próximo sábado (5). Nesta quinta, o patrulhamento ainda era reforçado nos principais acessos às comunidades da Maré.
O clima ainda era tenso na região e o medo ainda era presente nas comunidades. Moradores da região denunciaram que criminosos da comunidade do Caju estariam invadindo a Maré.
Beltrame se reúne com moradores
O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, se reuniu com moradores do Conjunto de Favelas da Maré na manhã desta quinta-feira (3) e ouviu reclamações sobre abuso de policiais durante a ocupação. Em resposta, ele disse que a abordagem agressiva pode acontecer às vezes mas que "não é regra", e prometeu instalar ouvidorias para avaliar a conduta de policiais nos locais onde há UPPs.
A Maré, segundo ele, também será um dos locais contemplados. As ouvidorias, segundo as informações divulgadas pelo secretário, devem ser instaladas em vans, onde os moradores vão poder fazer suas queixas formais. As ouvidorias passam a funcionar na próxima semana, ainda sem dia marcado.
"Isto aqui [ocupação da Maré] não foi feito por causa da Linha Vermelha, Linha Amarela, Galeão e Copa do Mundo. Foi feito para que seja um legado. A Copa do Mundo vai embora e vocês vão ficar. Nossas equipes [de Segurança] vão embora e a Maré vai ficar aqui", disse Beltrame.
Com a ocupação, a abordagem policial e as violações dos direitos humanos são as principais preocupações dos moradores das comunidades que compõem o Conjunto de Favelas da Maré, no Subúrbio do Rio. Estes foram os principais temas do encontro e permeiam um protocolo formulado pela Rede de Desenvolvimento da Maré e que foi apresentado ao secretário de Segurança no encontro desta quinta-feira.
O primeiro item do protocolo é a exigência de que os agentes que participam da ocupação usem, obrigatoriamente, a sua identificação. "Isso é um clamor", enfatizou a diretora da Rede, Eliana Sousa Silva. Outro proposta é a criação de uma ouvidoria dentro da Maré, que seja legitimada pelas autoridades públicas a registrar as denúncias de abusos.
Segundo Eliana, a chegada das Forças Armadas causa ainda mais apreensão aos moradores. "Por causa da lógica de guerra, de que o morador está ali como refém. É um equívoco você ter formas militares ocupando a Maré", afirmou.
Beltrame reiterou várias vezes que o Exército não ditará os rumos da vida dos moradores da Maré e garantiu que acompanhará de perto as apurações de possíveis abusos e violações. O secretário fez questão de, também, exaltar o papel das associações de moradores. "A polícia não vai decidir o futuro da comunidade. As associações de moradores, sim, têm legitimidade para isso", disse.
Violência policial
Durante o encontro entre o secretário de Segurança e os moradores da Maré, uma intensa salva de palmas foi ouvida quando a participação do Bope no treinamento dos policiais das UPPs foi criticada por Pedro Strozenberg, um dos integrantes do Conselho de Segurança Pública do Rio e dos Direitos Humanos. "Proponho que não se coloque bandeira do Bope e do Choque na praça, como foi feito aqui na Maré", sugeriu Pedro. Para ele, o histórico de formação do Bope perpétua a premissa da violência policial.
Medo ainda faz parte da rotina da Maré
Apesar da ocupação policial do Conjunto de Favelas da Maré no domingo (30) e do patrulhamento ostensivo, moradores da região que não quiseram se identificar ainda se sentem reféns da violência, como mostrou o RJTV desta quarta-feira (2). Segundo denúncias, as comunidades teriam sido invadidas por criminosos do Caju após a saída de traficantes da Maré no fim de semana da ocupação policiail. A Polícia Militar não confirma a informação e, ainda na quarta, Beltrame negou a informação.
"Na Maré, não temos informação de traficantes estarem migrando pra lá. Pelo contrário, temos notícias de onde alguns possam estar e eles estão, sim, fugindo de lá”.
Uma mulher relatou que a filha chegou em casa assustada após ser abordada por criminosos à luz do dia. Eles estariam armados de pistolas e usavam capacetes. Em um vídeo que teria sido feito na terça (1º), as imagens mostram homens armados circulando no local.
As denúncias se espalharam também pelas redes sociais. Em um dos recados, o usuário escreve que o "Complexo da Maré está sendo invadido por bandidos [eles] estão causando terror, roubando e espancando quem eles veem na rua". Outra mensagem, por meio de um bilhete, reitera que a comunidade teria sido invadida por criminosos do Caju e uma pessoa teria sido morta a facadas na Vila do João. Os bandidos teriam ainda pichado a fachada de uma escola com a sigla de uma facção criminosa.
A Polícia Civil informou que não há registro, em nenhuma delegacia, da morte a facadas. O Disque-Denúncia afirmou ter recebido, de janeiro a março, 166 denúncias sobre a Maré. Nos dois primeiros dias após a ocupação policial, foram 45.
Forças Armadas ficam na Maré até julho
De acordo com o Ministério da Defesa, as Forças Armadas foram autorizadas a entrar no Complexo a partir do primeiro minuto do próximo sábado. Militares da Marinha e da Aeronáutica vão permanecer nas 15 comunidades da Maré até o dia 31 de julho. Os militares poderão fazer vistorias e prender suspeitos em flagrante.

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