A Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), informou através de
uma nota oficial o adiamento das aulas para o dia 06 de fevereiro. Uma
reunião foi marcada para o próximo dia 31, com o Conselho Universitário
(Consuni), com a participação da comunidade para discutir a viabilidade
de execução do calendário.
A instituição está sem receber repasses de manutenção desde outubro
de 2015, afirma o reitor Luis Passoni. No ano passado, diz ele, foram
recursos de projetos individuais dos professores e do bolso dos
servidores que garantiram o funcionamento da universidade, mesmo para
pequenos reparos, como troca de lâmpadas. Os salários, no entanto,
também começaram a atrasar. Agora, o início das aulas deste ano letivo
está previsto para a próxima segunda-feira. No entanto, o colegiado da
universidade fará reuniões hoje e no próximo dia 30 para decidir se será
possível levar os planos adiante.
"A SITUAÇÃO VAI FUGIR DO CONTROLE" - Nos cálculos do reitor, já são R$ 20 milhões devidos pelo estado em
repasses de custeio, além de outros R$ 20 milhões com os atrasos dos
salários de dezembro e do 13º. Há quase 16 meses sem verbas, serviços
terceirizados deixaram de ser pagos. Nesse passo, os funcionários da
segurança entraram em greve em julho do ano passado. Três meses depois,
sem receber, a empresa responsável rescindiu seu contrato com a
universidade — que, desde então, depende do apoio da Polícia Militar e
da Guarda Municipal de Campos. No fim do ano, a instituição lançou uma
licitação para substituí-la. Não apareceu uma única firma interessada.
Já os funcionários da limpeza, conta o reitor, continuam sendo pagos
pela empresa terceirizada — segundo ele, também sem receber do estado há
mais de um ano. O fornecimento de produtos para o serviço, desde os
simples desinfetantes e detergentes, foi interrompido.
Para amenizar a deterioração dos prédios, temos feito algo com
recursos próprios. Mas, com os salários atrasados, nem isso podemos
fazer mais — afirma o Passoni. Passamos 2016 sem pagar a um fornecedor
sequer. Água temos porque a empresa da região, a Águas do Paraíba, tem
sido solidária conosco. Já a energia elétrica resolvemos por via
judicial: uma liminar proíbe que a Enel (antiga Ampla) corte nossa luz.
Se continuar assim, a situação vai fugir do controle e não teremos
condições mínimas de funcionamento afirma o reitor da universidade,
que tem cerca de seis mil alunos e 300 professores.
Nesse cenário, a universidade anda às voltas com a insegurança. Já
são relatados furtos, principalmente em instalações na zona rural. Mesmo
na unidade principal, mais perto do centro de Campos, no entanto,
ocorreu até uma invasão recente, que terminou em depredações.
Professor de geografia da instituição, Marcos Pedlowski conta que até
pássaros trinca-ferros de um projeto de pesquisa já foram roubados.
Emus — aves nativas da Austrália — tiveram que ser doados ou abatidos,
porque não havia dinheiro para alimentá-los.
O maior problema que temos é o governo que não entende a importância das universidades — critica ele.
Já na Uezo, o reitor Alex da Silva Sirqueira relata que a derrocada
veio quando a instituição já enfrentava dois problemas sem solução à
vista. O primeiro é que, após 12 anos de sua criação, a universidade
ainda não tem um campus próprio — funciona dentro de um colégio de
ensino médio em Campo Grande. A inauguração das obras que dariam uma
“casa própria” à instituição, às margens da Avenida Brasil, era a última
agenda pública do ex-governador Sérgio Cabral no cargo, em abril de
2014. Ele, no entanto, não apareceu. As dívidas do estado com a
universidade giram em torno de R$ 2,5 milhões, incluindo salários.
O segundo problema, diz ele, é que a lei de criação da Uezo não
previa concursos para técnicos administrativos. Hoje, são apenas nove,
numa instituição com dez cursos de graduação e três de pós-graduação.
Eles se juntam aos 98 professores, que não recebem desde dezembro.
Sobrevivemos em 2016 graças a uma ajuda de R$ 1,5 milhão da Alerj.
Mesmo assim, nosso ano letivo só começou em setembro. Agora, nosso
orçamento de custeio previsto para 2017 é de R$ 400 mil. Como, se apenas
nosso contrato com a empresa de limpeza custa R$ 800 mil? — questiona
Sirqueira. — A verdade é que a Uezo, hoje, é um projeto que ainda não
deslanchou, como se estivéssemos com as asas cortadas.
Na Uerj, por sua vez, nem a visibilidade conseguida pelos protestos
recentes tem surtido efeito para reverter a dívida do estado com a
universidade, que já chega a R$ 360 milhões. O ato de hoje, chamado de
“Uerj de luto na luta”, reunirá alunos, funcionários, professores e
convidados.
Estamos sem o restaurante universitário e até sem lâmpadas — afirma a sub-reitora de graduação, Tânia Carvalho Netto.
Para Antonio Freitas, do Conselho Nacional de Educação e Membro da
Academia Brasileira de Educação, não é possível manter uma educação
superior de qualidade com esse quadro, sem recursos. A situação, diz
ele, é grave.
Educação é a base de tudo. Há várias soluções. Uma delas é o
governo federal colocar dinheiro, em forma de empréstimo ou a fundo
perdido, porque o Estado do Rio não tem. Outra seria a criação de uma
espécie de Lei Rouanet da educação, em que empresas privadas poderiam
abater parte de seus impostos ao investirem nas universidade estaduais —
defende.

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