Muitos acreditam que o presidente dos EUA, Donald Trump, usa a "Teoria do
Louco" ("Madman Theory", em inglês) para lidar com a Coreia do Norte.
Se isso for verdade, o fato de ter sido chamado de "mentalmente
perturbado" pelo líder norte-coreano Kim Jong-um pode ter representado
uma conquista para o líder americano.
A ideia da "Teoria do Louco" é se colocar como alguém imprevisível ou
disposto a encarar um enfrentamento a qualquer custo na tentativa de
dissuadir o inimigo. Se um dos lados acredita genuinamente que o outro é
capaz dar início a um combate, pode ceder às demandas dele para evitar o
pior, como, por exemplo, um ataque nuclear.
A "Teoria do Louco" prevê que o comportamento supostamente irracional
seja deliberado, ou seja, o comportamento supostamente imprevisível -
que passa a impressão de que uma loucura pode ser cometida a qualquer
momento - não é verdadeiro, mas crível o suficiente para enganar o lado
oposto. Assim, nunca se sabe ao certo se a pessoa está se passando por
louca ou se realmente é um indivíduo instável.
As especulações de que Trump tenha seguido essa estratégia em sua
política externa surgiram antes mesmo dele assumir a Presidência dos EUA
em janeiro. Ainda durante a campanha, ele lançou mão da carta da
imprevisibilidade ao se posicionar sobre temas internacionais.
"Temos que ser imprevisíveis", respondeu Trump no ano passado, quando o
jornal The Washington Post lhe perguntou sobre o que pretendia fazer em
relação à expansão chinesa. "Somos muito previsíveis, e o previsível é
ruim."
Mas as suspeitas de que Trump aplica a Teoria do Louco na política
externa aumentaram no mês passado, quando prometeu responder com "fogo e
fúria" a ameaças Coreia do Norte.
Os motivos para acreditar que o norte-americano é adepto da estratégia
da imprevisibilidade ganharam ainda mais força esta semana quando Trump
foi à Assembleia Geral das Nações Unidas e disse que os EUA estão
preparados para "destruir totalmente" a Coreia do Norte.
No sábado, um dia após o segundo lançamento, pelo regime de Kim
Jong-un, de um míssil intercontinental, a tensão escalou quando
bombardeiros B-1B americanos, escoltados por jatos de combate,
sobrevoaram a península coreana - no que o Pentágono classificou de
"demonstração de força".
Mas será que Donald Trump realmente quer que Pyongyang o veja como
louco? Qual o risco de enfrentar um regime tão fechado que alega ter
armas nucleares?
A imagem do ex-presidente Richard Nixon (1969-1974) há anos é associada
à Teoria do Louco. Ele foi o primeiro presidente dos EUA a quem se
atribuiu o uso da estratégia, supostamente para intimidar a União
Soviética e também a Coreia do Norte. A ideia era fazer com que os
membros do bloco comunista pensassem que o então presidente americano
era inconstante e irracional.
H.R. Haldeman, que foi chefe de gabinete de Nixon, escreveu que o
ex-presidente lhe falou sobre a teoria quando disse querer que os
vietnamitas do norte pensassem que ele poderia fazer "qualquer coisa"
para por um fim à Guerra do Vietnã, sabendo que tinha nas mãos o "botão
nuclear".
Trump tem salientado que também controla ferramenta similar. Fez isso
no dia seguinte ao comentário em que prometeu "fogo e fúria", palavras
que integrantes do governo norte-americano descreveram como espontâneas.
Enquanto o secretário de Estado, Rex Tillerson, tranquilizava aliados
negando que houvesse uma ameaça iminente à Coreia do Norte, Trump usou
sua conta no Twitter para afirmar que sua primeira ordem como presidente
foi "renovar e modernizar" o arsenal nuclear dos EUA.
"Espero que nós nunca precisemos usar esse poder, mas nunca haverá um
tempo em não sejamos a nação mais poderosa do mundo", postou em 9 de
agosto.
Diversos analistas americanos comentam abertamente sobre a
possibilidade de Trump estar seguindo a linha de Nixon para tentar
amedrontar os norte-coreanos.
"Pode ser que você ache que a Teoria do Louco é a teoria certa aqui",
disse David Brooks, colunista do jornal The New York Times no programa
PBS Newshour. "Eu acho que pode ser muito eficaz, desde que você não
esteja realmente louco."
Como se trata de uma estratégia que não é anunciada, sempre haverá dúvidas sobre o uso da "Teoria do Louco".
Pode ser que Trump realmente esteja sendo direto quando alerta para o
risco de uma guerra devastadora com a Coreia do Norte se os EUA forem
obrigados a, como disse na Assembleia da ONU, "se defender ou a defender
seus aliados".
Lógica da rua: Joan Hoff, uma historiadora que publicou livros sobre Nixon e sobre a polícia exterior dos EUA, sustenta que não há certeza de que o então presidente realmente empregara a Teoria do Louco como sugerira Haldeman.
"Sempre se fala isso sobre Nixon, mas Nixon sabia muito sobre política
externa para adotar um enfoque tão simplista", disse Hoff à BBC Mundo, o
serviço em espanhol da BBC.
Contudo, ela diz que a teoria "provavelmente se aplica a Trump, porque ele nada sabe sobre relações internacionais".
Diante da dúvida se a postura de Trump é intencional ou não, há o
receio de que essa suposta "imprevisibilidade" do atual presidente possa
ser perigosa.
"Pode haver algum mérito na Teoria do Louco desde que você esteja numa
crise", disse David Petraeus, general da reserva dos EUA, em um debate
na Universidade de Nova York há alguns dias.
"Você não quer que o outro lado pense que você pode ser irracional o
suficiente para conduzir um primeiro ataque ou fazer algo impensável",
advertiu.
Muitos também acreditam que o líder norte-coreano Kim Jong-un também
segue a "Teoria do Louco" para se fazer respeitar em sua região e nos
Estados Unidos.
No Twitter, o próprio Trump definiu Jong-un como "um louco que não se importa em morrer de fome ou matar seu povo".
No entanto, outros o veem de forma diferente.
"Kim Jong-um não é um louco, é muito calculista", disse Howard Stoffer,
especialista em segurança nacional que trabalhou por 25 anos no serviço
diplomático dos EUA. "Lança comunicados que são bombásticos e
beligerantes, mas ele não lançou mísseis contra os Estados Unidos ou a
Coreia do Sul."
Na sua opinião, falar duro e ser imprevisível quando se tem um cargo
com tantas responsabilidades vai contra os interesses globais.
"É uma lógica de rua, que funciona quando você é um garoto do bairro e
há gangues. Isso não funciona na diplomacia internacional", disse
Stoffer à BBC Mundo. "O mundo funciona se tiver estabilidade e todos são
previsíveis."

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