O Núcleo de Estudos e Pesquisa em Animais Selvagens (Nepas), que
funciona no Hospital Veterinário da UENF, não recebe mais animais
feridos a partir desta quarta-feira (22). A informação foi confirmada
pelo coordenador do núcleo, professor Leonardo Serafim. Segundo ele, há
tempos que o setor não recebe verba do Instituto Estadual do Ambiente
(Inea) para aquisição de medicamentos, alimentos e demais materiais, e,
neste momento, a situação ficou “fora do controle” e culminou nessa
medida emergencial.
Em entrevista ao Jornal Terceira Via, o professor explicou que, bem
como ocorre em toda a UENF, o Nepas enfrenta uma grave crise financeira e
são os profissionais que atuam no espaço quem mantêm os gastos
necessários para dar seguimento aos atendimentos médicos, cirúrgicos,
ortopédicos e etc. Ao longo dos anos, o professor Leonardo e demais
médicos veterinários residentes e estagiários investem o próprio
dinheiro na compra de alimentos e medicamentos. Acontece que os
medicamentos têm valores elevados e a alimentação dos animais é bastante
diversificada — alguns são carnívoros, outros se alimentam apenas de
frutas frescas — e o gasto com esses produtos é dispendioso.
O Nepas funciona desde 2005 e recebe diariamente diversos animais da
fauna silvestre — como serpentes, gaviões, corujas, tamanduás, cachorro
do mato, vários tipos de aves, lobo-guarás, macaco prego, preguiça, etc.
— e a maioria deles com graves ferimentos causados por atropelamento e
até mesmo por disparos de armas de fogo. No espaço, os médicos
veterinários realizam todo o tipo de procedimento e tratamento para que
esses animais retornem aos seus habitats. Contudo, muitos sofrem danos
irreversíveis e acabam ficando mais tempo no espaço do que o planejado,
outros precisam de internação. Com isso, os gastos, que já são altos
diante do grande fluxo de animais que passam por ali, ficam ainda
maiores para prover todos esses bichos.
Caberia, portanto, ao Inea a responsabilidade de encaminhar esses
animais a locais apropriados, mas, além de não oferecerem a verba para a
manutenção do Nepas, o órgão também não efetua o deslocamento daqueles
que já não precisam de tratamentos médicos e que não podem ser
simplesmente deixados à solta.
“Ao longo desses 13 anos, o único período em que estivemos mais
tranquilos em relação à verba foi durante a implementação do Porto do
Açu. Foi quando recebemos uma espécie de sobrevida. Mas com a crise
financeira e com a consequente queda da demanda nesse empreendimento, as
verbas ficaram ainda mais escassas e mantivemos o Nepas simplesmente
por amor à profissão e aos animais. Ocorre que agora chegamos a uma
situação caótica e não temos mais como continuar atuando da maneira como
fazíamos antes”, explicou o professor.
Embora esse número seja bastante variável, em média o Nepas recebe
aproximadamente 1500 animais feridos por ano e a burocracia para a
realização dos atendimentos médicos é equivalente a esse número. “Os
órgãos ambientais parecem não ter noção dessa situação. Somos apenas um
pequeno setor de um Hospital Veterinário do interior. Com o meu próprio
dinheiro, já levei animais para receber tratamento na Bahia, mas com o
salário que recebo hoje, não tenho mais condições. Eu preciso sustentar
duas famílias, a minha e a do Nepas, e isso é difícil considerando os
vencimentos mensais de um professor brasileiro. Não se trata de má
vontade, muito pelo contrário”, declarou Leonardo.
O professor disse ainda que já fez uma série de projetos solicitando
verba ao Inea, mas nada aconteceu. O motivo, segundo ele, seria a origem
dos animais atendidos no local. “99% desses animais são de vida livre e
os órgãos parecem não ter interesse em cuidar deles por não serem
domésticos”, disse.
Agora, com a mudança que começa nesta quarta-feira (22), o Nepas
receberá apenas “pets exóticos”, ou seja, animais silvestres de
propriedade particular. “Assim, o dono desse animal é o responsável
pelos custos relativos aos alimentos e aos medicamentos, cabendo a nós,
médicos veterinários, apenas os serviços”, explicou o professor.
RESPOSTA INEA
A equipe de reportagem entrou em contato por telefone com o
superintendente Regional Baixo Paraíba do Sul do Inea, René Justen, e
este informou que, de fato, “a dificuldade é extrema”. Segundo ele, sem o
Nepas, não haveria outro local para encaminhar os animais selvagens
apreendidos, uma vez que, muitos deles necessitam de atendimentos
médico-veterinários antes de retornarem ao habitat ou serem distribuídos
a centros especializados fora da região.
“A verdade é que o Inea depende do Nepas. Outro núcleo que poderia
realizar esse serviço existe somente na capital e não há condições de
encaminharmos esses animais para esse local. A situação é muito
crítica”, disse René.
René lembrou ainda que, atualmente, as medidas compensatórias
recebidas pelo órgão são referentes apenas à reposição florestal e não a
atendimento a animais de vida livre.
Com o intuito de controlar a situação, o superintendente declarou que
o Inea tentará estabelecer um convênio com alguma empresa particular a
fim de conseguir verbas para auxiliar o Nepas, mas, a princípio, não há
garantias.

Nenhum comentário:
Postar um comentário