Ratos gigantes estão matando milhões de filhotes de aves em uma ilha
remota do Atlântico Sul, chegando a ameaçar espécies raras de extinção.
De acordo com um estudo da organização britânica Royal Society for the
Protection of Birds, ratos introduzidos na ilha de Gough no século 19
passaram a comer os ovos e os filhotes de pássaros.
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O grupo diz que, se nada for feito, uma espécie ameaçada, albatroz-de-tristão, provavelmente será extinta.
Há, entretanto, um projeto para erradicar o roedor até 2020.
Gough é uma ilha remota que faz parte do território do Reino Unido,
considerada uma das mais importantes colônias de pássaros do mundo, com
mais de 10 milhões deles.
É também chamada de Ilha de Gonçalo Álvares pelos portugueses, em
homenagem ao explorador que teria sido um dos primeiros a chegar ao
local, no início do século 16.
Os ratos chegaram à ilha vulcânica de 91 km² trazidos pelos navios que
aportavam ali no século 19, e se adaptaram às condições naquele pequeno
pedaço de terra alimentando-se de ovos e de filhotes de aves.
Câmeras já registraram grupos de até nove ratos comendo os filhotes de pássaros.
A estratégia adaptativa deu tão certo que os ratos acabaram se tornaram "gigantes". São 50% maiores do que um rato doméstico.
"Muitas das aves da ilha são pequenas e fazem seus ninhos em buracos",
diz Anthony Caravaggi, da University College Cork, na Irlanda.
"Os filhotes são menores e não têm como fugir, então, para um rato
oportunista, eles são presa relativamente fácil. Como ficaram maiores,
os ratos agora atacam todos os pássaros, mesmo os filhotes de
albatroz-de-tristão, que são maiores do que outras aves".
De acordo com o estudo de Caravaggi, ao menos dois milhões de filhotes estão sendo perdidos anualmente.
A preocupação principal são as espécies raras em Gough, especialmente o albatroz-de-tristão.
Só restam 2 mil casais. As aves vivem em casal a vida toda e produzem só um ovo por ano.
Há registros de pais que voltam para o ninho com comida e encontram os
filhotes mortos. A extinção dessa espécie é dada certa em algumas
décadas, caso a situação não seja revertida.
"Num curto espaço de tempo, o albatroz-de-tristão desaparecerá, assim como várias outras espécies", diz Caravaggi.
"Apesar da ave ser a que mais chama atenção, há outras espécies aqui,
como a grazina-de-barriga-branca e faigões, que serão os próximos (a
entrarem em extinção), se os ratos não forem removidos."
Dado que os ratos se adaptaram à oportunidade que as aves representam, por que elas também não reagiram à ameaça?
"Essas espécies evoluíram para viver na ilha livres de predadores. É
por isso que tem tantas aves lá", diz Alex Bond, do Natural History
Museum, que também assina a pesquisa.
"Surgem novas gerações de ratos umas duas vezes por ano, mas, para aves
como a albatroz-de-tristão, que ficam os primeiros dez anos no mar,
demora muito para esses mecanismos comportamentais terem efeito."
A RSPB, junto com o governo do arquipélago de Tristão da Cunha, que são
os responsáveis pela ilha, fizeram um plano para erradicar os ratos da
ilha.
A operação deve começar em 2020. Por causa da localização da ilha, é um grande desafio logístico.
É preciso enviar um navio da África do Sul, que vai levar dois
helicópteros e um carregamento de bolinhas de cereal munidas de um
anticoagulante que, em tese, mataria os ratos em 24 horas.
Ao chegarem à ilha, os helicópteros espalhariam as bolinhas pelo
território. Há alguns anos a RSPB vem fazendo campanhas para levantar
recursos para viabilizar a força-tarefa.
"Eliminar essa espécie invasiva é algo que já foi feito em 700 ilhas pelo mundo", diz Bond.
"Não é uma novidade o que estamos fazendo, é uma técnica testada que pode trazer a solução que precisamos."

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