A Prefeitura de Nova Friburgo informou na manhã desta quarta-feira,
27, que as unidades de saúde da cidade estão sem soro utilizado para o
tratamento de picadas de animais peçonhentos, como cobras, aranhas e
escorpiões. Por isso, pede que a população redobre os cuidados para
evitar acidentes até normalização do estoque.
No fim da tarde, porém, a Subsecretaria de Vigilância em Saúde
informou à coluna do Massimo que, de fato, nas últimas semanas,
faltou soro antiofídico, mas o estoque já foi reposto. Ainda assim,
segundo a subsecretaria, ele não vem em grande quantidade como vinha no
passado, houve uma redução na produção, e por isso o órgão pede à
população para que se proteja e evite locais de maior incidência.
Segundo a subsecretaria, o soro é uma exclusividade do Hospital de
Emergência, o Raul Sertã, não sendo oferecido em posto de saúde.
De acordo com a nota da prefeitura, o estoque do município foi zerado
devido ao abastecimento irregular feito pelo Ministério da Saúde. “O
órgão é o responsável por produzir e distribuir, via secretarias
estaduais, o tratamento antipeçonhento. Nos últimos meses, a quantidade
encaminhada para Nova Friburgo foi tão reduzida que o Hospital Municipal
Raul Sertã não dispõe de estoque”.
De janeiro até esta terça-feira, 26, a Secretaria Municipal de Saúde
já contabilizou 44 ocorrências de picadas de animais peçonhentos, sendo
quatro envolvendo serpentes, 30 com aranhas, sete de escorpiões e três
de lagartas. Houve ainda casos de picada de abelhas, mas nenhum demandou
utilização de soro.
Moradores e turistas que forem frequentar locais como matas, trilhas e
florestas devem usar equipamentos de proteção individual, como botas e
luvas grossas. A secretaria ainda orienta que a população evite capturar
animais peçonhentos e verifique sempre roupas e calçados antes de
usá-los.
A VOZ DA SERRA entrou em contato com o Ministério da Saúde e a
Secretaria Estadual de Saúde para esclarecer a falta do soro na cidade e
aguarda uma posição sobre o assunto.
Invasão de escorpiões
No final de 2018, escorpiões estavam invadindo imóveis em bairros
como Cônego, Olaria e Tingly e também do distrito de Lumiar. No ano
passado, seis pessoas haviam sido picadas por escorpiões em Nova
Friburgo, segundo informou na época a Secretaria Municipal de Saúde. O
verão e o aumento da umidade são propícios a escorpiões em áreas
urbanas.
Presentes na natureza há mais de 400 milhões de anos, os escorpiões
são os animais peçonhentos responsáveis pelo maior número de casos de
intoxicação humana no Brasil, segundo o Sistema Nacional de Informações
Tóxico-Farmacológicas, da Fundação Oswaldo Cruz (Sinitox/Fiocruz). As
picadas de escorpiões correspondem a aproximadamente 60% dos acidentes
com animais peçonhentos no país.
“Desse total, 97% são classificados como leves, porque os animais não
inoculam veneno ou, quando o fazem, apenas uma fração do veneno é
injetada, causando apenas dor. Mas entre os acidentes graves envolvendo
crianças e idosos a letalidade é considerada alta devido à toxicidade
desse veneno. O escorpião é uma praga urbana e em 2015 o número de
óbitos por picadas de escorpião, nas áreas rurais e urbanas no país,
superou o de mortes por picadas de serpente”, disse biólogo e
pesquisador da Fiocruz, Claudio Maurício Vieira de Souza.
No Estado do Rio, são conhecidas nove espécies de escorpiões. Três aparecem com mais frequência próximas ao homem: Thestylus aurantiurus, Tityus costatus (consideradas causadoras de acidentes que não agravam) e Tityus serrulatus,
o escorpião-amarelo, responsável por provocar acidentes graves,
sobretudo, em crianças e idosos. “Essa é uma das espécies mais venenosas
que existem e vem se espalhando em áreas urbanas porque, entre outras
coisas, prolifera facilmente e estaria ocupando o lugar de escorpiões
menos nocivos”, disse o biólogo.
Para Cláudio, as cidades não estão sendo invadidas por escorpiões. O
que ocorre é que os modelos de alterações ambientais e de ocupação do
espaço pelo homem promovem a criação de condições que favorecem várias
espécies de animais que passam a viver em uma situação chamada de
sinantropia, quando animais colonizam habitações humanas e seus
arredores retirando vantagens em matéria de abrigo, acesso a alimentos e
água. “Entre essas espécies estão algumas de escorpiões perigosos, que
como vivem junto com o homem, causam os acidentes e são dispersadas
pelas nossas atividades, aumentando o problema ou introduzindo-o em
novas áreas. Não há uma migração espontânea de escorpiões para as
cidades”.
O especialista explica que o escorpião não costuma atacar sua presa e
usa o veneno como instrumento de defesa. O animal é atraído por locais
habitados por baratas, que são uma fonte de alimento e costumam aparecer
com mais frequência durante o verão. Há uma correlação direta entre a
ocorrência de acidentes e os meses mais quentes e úmidos do ano. Os
escorpiões se adaptam muito bem à vida no subterrâneo das cidades e
quando buscam um abrigo provisório, acabam subindo pelas tubulações,
ocasiões em que podem terminar escondendo-se dentro de residências.
Como se proteger - O biólogo orienta que para a prevenção de acidentes com escorpiões são
necessárias medidas que eliminem os abrigos úmidos onde vivem (entulhos,
frestas, materiais de condução, forros, panos deixados no chão,
encanamentos, entre outros); cuidados com as aberturas por onde possam
ter acesso às casas (ralos, frestas de portas, janelas, vasos de
plantas, materiais em geral que entram na residência) e; eliminação dos
insetos domésticos (limpeza frequente, cuidados com o lixo, etc.).
“Existem inseticidas que são registrados nos órgãos competentes para
controle de escorpiões, mas, embora testados em laboratório, ainda não
foram avaliados com métodos científicos de campo no Brasil. Há também
empresas de controle de pragas registradas que oferecem esse serviço com
garantia”, disse.
- Encontrei um escorpião em casa. O que fazer? Cláudio destaca que mesmo perigosos, os escorpiões são protegidos
pela Lei de Fauna Silvestre e somente podem ser controlados por órgãos
públicos ou entes privados quando em sinantropia e oferecendo risco à
saúde humana. A população deve, sem se expor a risco de acidente, tentar
aprisionar o animal e informar ao órgão público municipal de saúde. Em
Friburgo, deve-se ligar para Vigilância em Saúde Ambiental, telefone
(22) 2543-6293.
- Fui picado, e agora? No caso de picada de escorpião a pessoa deve lavar o local com água e sabão e procurar socorro médico imediatamente, informa o especialista. “A pessoa picada pode procurar o primeiro atendimento em qualquer serviço de saúde, mas o tratamento específico, para aqueles acidentes classificados como moderados e graves, deve ser feito em centros de referência onde há soro específico para o tratamento”, afirmou o biólogo.

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