A Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo (SAP) fez uma
alteração em seus planos de ceder partes da administração de presídios a
empresas privadas, prática batizada de "cogestão".
Uma das quatro unidades previstas para serem administradas em conjunto
com gestoras particulares, o Centro de Detenção Provisória (CDP) de
Álvaro de Carvalho, foi substituída pelo CDP de Registro, ambos ainda
por inaugurar e localizados no interior do Estado.
É comum que agentes penitenciários de São Paulo, quando uma unidade
nova é aberta, peçam transferência. Foi identificada uma alta procura
pelo CDP de Álvaro de Carvalho, daí a troca.
Ainda não é certo quantas vagas haverá para os funcionários de carreira
da SAP nos presídios previstos para o programa de cogestão, e nem
quantos celetistas serão contratados pelas gestoras.
O termo de referência da concorrência, que dará as diretrizes de quais
setores das unidades ficarão a cargo das empresas e quais serviços
deverão ser prestados, ainda está sendo discutido.
Uma minuta foi publicada e parcialmente debatida em audiência pública
nesta segunda-feira (6). Opositores da ideia aproveitaram para
pressionar na porta da SAP e dentro da audiência.
Registro foi escolhida porque a demanda por transferências para o local
era mais baixa. O sistema da SAP mostra que há poucos agentes
penitenciários concursados oriundos da região – sul do Estado.
De acordo com o coronel Marco Antônio Severo, assessor técnico do
secretário de Administração Penitenciária, Nivaldo Restivo, a mudança
foi para atender a pedido dos agentes.
Também há, porém, demanda por transferências para as áreas dos outros
três CPDs que o governo quer que tenham participação privada – Gália I e
II e Aguaí.
“Tem um monte de servidor que trabalha em Campinas que quer ir para
Aguaí”, afirma Fábio César Ferreira, presidente do Sindicado dos
Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo (Sifuspesp).
O sindicato é contrário à concessão de parte dos serviços em unidades
prisionais à iniciativa privada. É possível haver judicialização,
inclusive por parte de funcionários que tenham uma transferência
frustrada pela entrada das empresas.
“Ação judiciais não estão descartadas. Não é nossa principal ação, mas
vão ter de todas as formas. O servidor que se sentir prejudicado por
estar na listagem [de pedidos de transferência] e não poder ir embora
pode entrar na Justiça também”, afirma Ferreira.
O coronel Severo diz que não há nada irregular em eventuais negativas a
pedidos de transferência para essas novas prisões. “Só se pode pedir
transferência para a unidade depois de aberta”, afirmou ele ao Terra. Elas estão em fase final de construção.
De acordo com Severo, o edital para concorrência deve ser publicado até
o fim de maio. Se correr conforme a expectativa do governo, tudo deve
estar homologado em outubro.
Uma vez terminado o processo de contratação, as empresas precisam de,
em média, dois meses para colocar a unidade em funcionamento.
A SAP sabe de quatro empresas que atuam na área no Brasil e que
provavelmente estarão na concorrência. As mais famosas são GPA, gestora
do presídio de Ribeirão das Neves, em Minas Gerais, e Umanizzare,
responsável pelo Compaj – prisão no Amazonas onde houve um massacre no
começo de 2017.
Perguntado se as cadeias com participação privada receberão integrantes
do Primeiro Comando da Capital (PCC), Severo disse que “nenhuma unidade
nova recebe preso faccionado”. “Já há no sistema unidades com escolha
de presos”, afirma.
Além desses quatro presídios que o governo planeja colocar em
modalidade de cogestão com empresas privadas, há outros oito em fase
final de construção no Estado.
Essas outras unidades não foram incluídas nessa lógica porque já há funcionários concursados para atuarem nessas cadeias.
No modelo de cogestão, parte das atividades do presídio é feita pelas
empresas e parte por agentes do Estado. Há pouca polêmica quanto à
contratação de entes particulares para áreas como alimentação e
lavanderia.
Sobre a custódia e disciplina dos presos, porém, há disputa. Os
críticos apontam como temerário dar a entes particulares o poder de
privar pessoas de liberdade.
A intenção do governo do Estado, porém, é ir além da cogestão. Esse
seria o primeiro passo rumo à celebração de parcerias público-privadas
(PPP) no sistema carcerário paulista. Nessa modalidade, a gestão é
integralmente das contratadas.
O governador do Estado, João Doria, anunciou seu projeto de ter
presídios geridos por PPPs em janeiro deste ano, no começo de sua
gestão.
De lá para cá, a proposta tem sofrido oposição de agentes
penitenciários, entidades da sociedade civil, como a Pastoral
Carcerária, e Defensoria Pública do Estado.
Agentes penitenciários e ONGs de direitos humanos costumam ter atritos
devido ao trato com presos. Neste caso, porém, uniram-se para
pressionar. Os responsáveis pela parte jurídica dessas entidades
planejam agir conjuntamente no Judiciário contra o projeto.

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