Apontado nas investigações da Polícia Federal como sendo mentor do grupo
que invadiu os celulares das principais autoridades do País, dentre
elas o presidente da República, Jair Bolsonaro, e o atual ministro da Justiça, Sergio Moro, o programador Thiago Eliezer Martins responsabilizou o colega Walter Delgatti, o "Vermelho", pelo crime. Preso na superintendência da PF em Brasília desde 17 de setembro, ele aceitou responder a perguntas do Estado por meio de carta. Martins garante não saber se alguém pagou pelas mensagens ou as encomendou.
No inquérito sigiloso da Operação Spoofing consta que o programador é
dono de imóveis, restaurantes e uma casa financeira em Brasília. Como o Estado revelou,
no último dia 3 de outubro, o programador era chamado por Delgatti pelo
codinome de "Professor", em referência à série espanhola La Casa de Papel. No seriado, o "Professor" é o mentor dos assaltos que marcam a trama.
Para a Polícia Federal, as respostas para encontrar o possível mandante
do roubo das mensagens e para o pagamento pelo vazamento das conversas
estariam com o "Professor", e não com "Vermelho".
Você é o mentor do grupo acusado de hackear várias autoridades do País?
Não, eu não sou o mentor. Eu não teria motivo algum para tal ato.
Você invadiu ou roubou mensagens de celulares de autoridades?
Não invadi, muito menos roubei alguma mensagem. O próprio Walter já
admitiu que agiu sozinho. Eu estou sendo acusado de invadir
especificamente a conta do deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP).
No pedido da minha prisão preventiva eles dissimulam e distorcem
totalmente os laudos técnicos do próprio inquérito para induzir o
Judiciário ao erro.
Alguém pagou pelas mensagens ou encomendou?
Antes da deflagração da primeira fase da operação, o Walter me disse, sim, que teve acesso ao Telegram de autoridades e que ele era o responsável do repasse de arquivos ao site The Intercept.
Qual é a sua participação na invasão do celular de autoridades?
Nunca tive qualquer participação. O próprio Walter já alegou que
efetuou todas as invasões sozinho. E todos os laudos periciais técnicos
informam que todas as invasões partiram do computador e residência do
Walter.
Você teve orientação de algum político ou autoridade para que tentasse acessar celular de autoridades?
Nunca tive qualquer contato com o meio político e nunca me aproximei de
qualquer tipo de autoridade. Portanto, não existiria o porquê de
possuir qualquer motivação para este ato.
Como está acompanhando essa situação toda da prisão? Tem colaborado com as autoridades?
Até agora estou acompanhando perplexo e indignado. Pois assim que houve
a prisão do Walter, por diversas vezes tentei me apresentar
voluntariamente e ajudar a esclarecer todos os fatos. Fui rejeitado em
todas as tentativas. Meu representante legal protocolou algumas vezes
minha disponibilidade para esclarecimentos, inclusive a última vez que
tentei foi aproximadamente uma semana antes da minha prisão temporária.
Mas o delegado do caso simplesmente informou que eu não possuía nada a
colaborar com o caso. As petições estão nos autos.
Tenho colaborado, sim, com tudo. Forneci espontaneamente as senhas do
meu computador e do meu aparelho celular. Apenas fico triste, pois está
virando uma caça às bruxas, buscando de qualquer forma culpados sem
preocupação com os princípios e garantias individuais.
Acredita que a delação do Luiz Molição pode te implicar de alguma forma?
(Não teve resposta)
Acha que o Walter pode ter recebido dinheiro pela venda das mensagens? Ele chegou a comentar algo contigo?
Não tenho conhecimento de pagamento e também não sei se houve algum
montante. Mas, por relatos do próprio Walter, até pouco antes da sua
prisão, ele sempre eufórico, antes de vazar as mensagens para o Glenn
(Greenwald, do Intercept), falava que descobriu e fazia tudo só. E
falava que o que estava fazendo não tinha preço e que o Brasil precisava
urgentemente saber da verdade (mensagens mostram o então juiz Sérgio
Moro e procuradores da Lava Jato em Curitiba discutindo o andamento das
investigações).
Sobre o microfone que teria sido encontrado num encanamento de chuveiro, foi você quem encontrou com a ajuda do Walter? Onde está este microfone hoje?
Eu que tirei o microfone. E eu entreguei ao meu advogado, que levou com
ele e contratou uma perícia particular, além da investigação que está
sendo feita pela corregedoria.

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